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Concentrar-se parece ter se tornado uma tarefa cada vez mais difícil. Ler um livro por meia hora, assistir a uma aula sem verificar o celular ou trabalhar durante um período prolongado sem abrir outra aba pode exigir um esforço que muitas pessoas não sentiam da mesma maneira no passado. Ao mesmo tempo, estamos cercados por uma quantidade de informação sem precedentes.

Essa dificuldade não significa necessariamente que o cérebro humano esteja ficando menos inteligente. O problema é que nosso ambiente mudou radicalmente. O cérebro continua funcionando com mecanismos desenvolvidos ao longo de milhares de anos, enquanto a tecnologia moderna oferece estímulos praticamente ilimitados, rápidos e imprevisíveis.

A atenção é um recurso limitado. Em determinado momento, o cérebro precisa selecionar quais informações receberão prioridade e quais serão ignoradas. Esse processo permite que consigamos conversar em um ambiente movimentado, dirigir no trânsito ou estudar enquanto descartamos inúmeros estímulos irrelevantes.

Uma das regiões mais importantes nesse controle é o córtex pré-frontal, responsável por funções executivas como planejamento, tomada de decisões, controle de impulsos e manutenção da atenção.

Entretanto, manter esse controle exige esforço.

Quando uma pessoa precisa se concentrar durante muito tempo, a fadiga mental aumenta. Se, ao mesmo tempo, existem estímulos constantemente disputando sua atenção, o trabalho se torna ainda mais difícil.

É exatamente isso que acontece quando utilizamos dispositivos digitais.

Uma notificação pode parecer insignificante. Uma mensagem demora poucos segundos para ser lida. Uma rápida olhada em uma rede social pode levar apenas alguns minutos.

O problema está na repetição.

Cada interrupção exige que o cérebro abandone temporariamente a tarefa atual e processe uma nova informação. Depois, precisa reconstruir o contexto anterior para voltar ao trabalho.

Esse fenômeno é conhecido como task switching, ou troca de tarefas.

Pesquisas mostram que esse processo possui um custo cognitivo. Quanto mais frequentemente alternamos entre atividades, maior tende a ser o tempo necessário para concluí-las e maior pode ser a quantidade de erros.

Por isso, a chamada multitarefa é frequentemente uma ilusão.

O cérebro consegue alternar rapidamente entre tarefas simples, mas não executa simultaneamente duas atividades cognitivamente complexas com a mesma eficiência.

Estudar enquanto responde mensagens, por exemplo, pode parecer produtivo, mas normalmente reduz a qualidade da atenção dedicada às duas atividades.

Outro elemento importante é a recompensa variável.

Redes sociais, aplicativos e plataformas de entretenimento oferecem conteúdos diferentes a cada atualização. O usuário não sabe quando encontrará algo particularmente interessante.

Essa imprevisibilidade mantém o cérebro em busca constante de novidades.

A dopamina participa desse mecanismo. Ela está relacionada à motivação e à expectativa de recompensa, ajudando a direcionar nossa atenção para estímulos potencialmente relevantes.

O problema não é a dopamina em si. Ela é fundamental para o funcionamento normal do cérebro. A questão está na exposição contínua a estímulos que oferecem recompensas rápidas.

Quando passamos horas consumindo vídeos curtos, por exemplo, cada conteúdo pode ser substituído imediatamente por outro. Se algo não desperta interesse em poucos segundos, basta deslizar a tela.

Esse padrão pode criar um ambiente no qual a atenção é constantemente recompensada por novidades.

Atividades que exigem concentração prolongada funcionam de maneira diferente.

Ler um artigo científico, aprender um instrumento musical ou estudar matemática não produz necessariamente recompensas imediatas. Os benefícios aparecem depois de muito esforço.

Para o cérebro, isso pode ser menos atraente do que uma sequência interminável de estímulos rápidos.

O sono também possui papel central.

Durante o descanso, o cérebro consolida memórias e restaura funções cognitivas importantes. Dormir pouco prejudica atenção, memória de trabalho, velocidade de processamento e controle emocional.

Uma pessoa privada de sono pode até conseguir permanecer acordada, mas terá muito mais dificuldade para manter concentração por longos períodos.

O estresse representa outro fator importante.

Quando estamos preocupados, parte dos recursos cognitivos é direcionada para monitorar possíveis problemas. Pensamentos recorrentes competem com a tarefa que estamos tentando realizar.

É por isso que alguém pode passar horas diante de um computador e perceber que quase não conseguiu avançar porque estava constantemente pensando em outros problemas.

O estresse crônico também pode afetar estruturas cerebrais envolvidas no controle da atenção e da memória.

A ansiedade apresenta mecanismo semelhante. Uma pessoa ansiosa pode experimentar pensamentos intrusivos ou antecipações negativas que dificultam a manutenção do foco.

Isso cria uma situação curiosa: quanto mais tentamos “forçar” a concentração, mais frustrados podemos ficar quando pensamentos indesejados aparecem.

A atividade física também influencia a capacidade cognitiva.

Exercícios regulares aumentam o fluxo sanguíneo cerebral e estão associados à melhora de funções executivas, memória e atenção. Além disso, a prática de atividade física pode reduzir sintomas de ansiedade e estresse, facilitando indiretamente a concentração.

Outro fator relevante é o ambiente.

Um local com muitas notificações, conversas, televisão ligada e outras distrações exige esforço adicional para manter a atenção.

Por isso, uma das formas mais eficientes de melhorar a concentração é simplesmente reduzir o número de estímulos disponíveis.

Colocar o celular no modo silencioso, fechar abas desnecessárias, desativar notificações e estabelecer períodos específicos para verificar mensagens são medidas simples que podem reduzir significativamente as interrupções.

Também é útil trabalhar com períodos de foco.

Em vez de esperar que o cérebro permaneça concentrado durante várias horas, pode-se dividir tarefas complexas em blocos de atenção intercalados com pequenas pausas.

Isso permite recuperar parte dos recursos cognitivos antes de iniciar uma nova sessão.

A leitura também pode funcionar como um exercício de atenção.

Livros exigem que o cérebro mantenha informações por períodos prolongados e construa relações entre diferentes partes do texto. Com prática, atividades desse tipo podem ajudar a desenvolver tolerância a estímulos menos imediatos.

É importante, porém, evitar a ideia de que estamos vivendo uma “crise cerebral” causada exclusivamente pelos celulares.

A tecnologia pode prejudicar a atenção em determinadas circunstâncias, mas também oferece ferramentas extraordinárias para aprender, pesquisar, trabalhar e se comunicar.

O problema está no uso excessivo e pouco intencional.

Outro ponto importante é diferenciar dificuldade de concentração ocasional de transtornos como o TDAH.

Pessoas com TDAH apresentam um padrão persistente de sintomas relacionados à atenção e/ou hiperatividade-impulsividade que começa na infância e interfere em diferentes áreas da vida. Não é correto diagnosticar alguém apenas porque passa muito tempo no celular ou se distrai facilmente.

Quando a dificuldade de concentração é persistente e prejudica trabalho, estudos ou relacionamentos, uma avaliação profissional pode ser importante.

Em síntese, a dificuldade de concentração na sociedade moderna está relacionada a uma combinação de fatores: excesso de estímulos, interrupções constantes, redes sociais, sono inadequado, estresse e ambientes pouco favoráveis ao foco. O cérebro humano não perdeu sua capacidade de prestar atenção; ele simplesmente está sendo exposto a uma quantidade extraordinária de estímulos competindo por esse recurso. Recuperar a concentração passa por reduzir interrupções, proteger o sono, praticar atividade física e criar períodos deliberados de foco profundo. Em uma época em que quase tudo disputa nossa atenção, saber escolher onde colocá-la tornou-se uma habilidade fundamental.

Referências científicas

– Ophir, E.; Nass, C.; Wagner, A. D. Cognitive Control in Media Multitaskers. Proceedings of the National Academy of Sciences.

– Stothart, C.; Mitchum, A.; Yehnert, C. The Attentional Cost of Receiving a Cell Phone Notification. Journal of Experimental Psychology: Human Perception and Performance.

– Posner, M. I.; Rothbart, M. K. Attention, Self-Regulation and Consciousness. Philosophical Transactions of the Royal Society B.

– Diamond, A. Executive Functions. Annual Review of Psychology.

– Chang, A. M. et al. Evening Use of Light-Emitting eReaders Negatively Affects Sleep, Circadian Timing, and Next-Morning Alertness. Proceedings of the National Academy of Sciences.