Resfriados frequentes, cansaço persistente, infecções que demoram a melhorar e a sensação…
A sensação de barriga inchada é uma das queixas digestivas mais comuns. Algumas pessoas acordam com o abdômen aparentemente normal e percebem que ele aumenta de volume ao longo do dia. Outras sentem pressão, desconforto, excesso de gases ou a impressão de que o estômago está cheio mesmo depois de uma refeição pequena.
Embora seja frequentemente atribuída à alimentação, a distensão abdominal pode ter diferentes causas. Em muitos casos, está relacionada a processos digestivos comuns e não representa um problema grave. Em outros, pode indicar constipação, intolerâncias alimentares, alterações na interação entre o intestino e o cérebro ou doenças que precisam de investigação.
Para compreender por que isso acontece, é importante diferenciar dois fenômenos: o inchaço abdominal e a distensão abdominal.
O inchaço é a sensação subjetiva de pressão, plenitude ou aumento do volume da barriga. A distensão é o aumento perceptível ou mensurável do perímetro abdominal. Os dois podem ocorrer juntos, mas não são exatamente a mesma coisa.
Uma pessoa pode sentir a barriga muito cheia sem apresentar grande aumento de volume. Outra pode observar uma distensão visível, especialmente depois das refeições, mesmo que o desconforto seja relativamente pequeno.
Essa diferença ajuda a explicar por que o problema nem sempre pode ser resolvido simplesmente tentando eliminar gases.
Os gases intestinais são uma das causas mais conhecidas do inchaço. Eles entram no sistema digestivo principalmente pela deglutição de ar e são produzidos durante processos de fermentação realizados por microrganismos que vivem no intestino grosso.
Quando comemos rapidamente, conversamos enquanto mastigamos, mascamos chiclete ou consumimos bebidas gaseificadas, podemos engolir mais ar. Parte desse ar pode ser eliminada por meio de arrotos, enquanto outra parte chega ao intestino.
A fermentação intestinal acontece quando bactérias utilizam determinados componentes dos alimentos que não foram completamente digeridos e absorvidos no intestino delgado.
Esse processo é normal e faz parte do funcionamento da microbiota intestinal. Entretanto, ele também produz gases, incluindo hidrogênio e dióxido de carbono. Em algumas pessoas, outros microrganismos produzem metano.
A quantidade de gás produzida depende do tipo de alimento, da composição da microbiota, do trânsito intestinal e da capacidade individual de digerir e absorver determinados carboidratos.
Por isso, alimentos que provocam bastante desconforto em uma pessoa podem ser bem tolerados por outra.
Feijão, lentilha, grão-de-bico, cebola, alho, algumas frutas e determinados vegetais contêm carboidratos fermentáveis. Leite e derivados também podem provocar sintomas em pessoas com dificuldade para digerir lactose.
Isso não significa que esses alimentos sejam prejudiciais ou devam ser eliminados preventivamente da dieta. Muitos são fontes importantes de fibras, vitaminas, minerais e outros nutrientes.
O objetivo é identificar padrões individuais sem restringir desnecessariamente a alimentação.
A lactose é um exemplo importante.
Para ser absorvida, ela precisa ser quebrada pela enzima lactase, produzida no intestino delgado. Quando a atividade dessa enzima é insuficiente, parte da lactose chega ao intestino grosso e é fermentada pelas bactérias.
O resultado pode incluir gases, distensão, dor abdominal e diarreia.
A intensidade dos sintomas varia conforme a quantidade consumida e a capacidade individual de digerir lactose. Algumas pessoas toleram pequenas porções de leite ou conseguem consumir determinados derivados sem desconforto significativo.
Outra causa comum é a constipação intestinal.
Quando as fezes permanecem por mais tempo no intestino, a evacuação pode ficar difícil e a sensação de plenitude aumentar. O acúmulo de conteúdo intestinal também pode contribuir para a distensão e para alterações na eliminação de gases.
A constipação não significa apenas evacuar poucas vezes por semana. Fezes muito duras, esforço excessivo, sensação de evacuação incompleta e necessidade frequente de fazer força também podem indicar o problema.
Uma alimentação com fibras insuficientes, pouca atividade física, baixa ingestão de líquidos em determinadas circunstâncias, alguns medicamentos e alterações do funcionamento intestinal podem contribuir para a constipação.
Aumentar a ingestão de fibras gradualmente, manter atividade física e garantir hidratação adequada pode ajudar. Entretanto, elevar bruscamente o consumo de fibras pode piorar o inchaço em algumas pessoas, principalmente quando o intestino ainda não está adaptado.
O funcionamento intestinal também é influenciado pelo sistema nervoso.
O intestino possui uma extensa rede de neurônios conhecida como sistema nervoso entérico, que participa da coordenação dos movimentos digestivos e da comunicação com o sistema nervoso central.
Isso ajuda a explicar por que estresse, ansiedade e outras alterações emocionais podem influenciar sintomas gastrointestinais.
O cérebro e o intestino mantêm comunicação constante por vias nervosas, hormonais e imunológicas. Em algumas pessoas, essa interação contribui para uma maior sensibilidade às sensações produzidas pelo sistema digestivo.
O resultado pode ser uma percepção intensa de pressão ou dor mesmo quando a quantidade de gás não é excepcionalmente elevada.
Esse mecanismo é relevante em condições como a síndrome do intestino irritável, um distúrbio caracterizado por dor abdominal recorrente associada a alterações da evacuação, como diarreia, constipação ou alternância entre as duas.
Pessoas com essa síndrome podem apresentar inchaço frequente, mas os sintomas variam bastante. O diagnóstico depende da avaliação do conjunto de manifestações, e não apenas da presença de gases.
A alimentação também pode participar do quadro.
Algumas pessoas são sensíveis a carboidratos fermentáveis conhecidos como FODMAPs. Esses compostos estão presentes em diversos alimentos e podem aumentar a quantidade de água no intestino ou a produção de gases durante a fermentação.
Uma dieta com baixo teor de FODMAPs pode reduzir sintomas em determinados pacientes com síndrome do intestino irritável. Porém, costuma ser aplicada por um período limitado, com reintrodução planejada dos alimentos e, idealmente, orientação de nutricionista.
Manter restrições extensas por conta própria pode reduzir a variedade da alimentação e dificultar o consumo adequado de nutrientes.
Outro fator importante é a velocidade das refeições.
Comer muito rapidamente pode favorecer a deglutição de ar e dificultar a percepção dos sinais de saciedade. Refeições muito volumosas também podem aumentar a sensação de plenitude, especialmente em pessoas que apresentam maior sensibilidade digestiva.
Isso não significa que seja necessário mastigar cada alimento um número específico de vezes. O mais útil é comer com calma, evitar excessos desconfortáveis e observar como o organismo reage a diferentes porções.
Bebidas gaseificadas podem aumentar temporariamente a sensação de distensão, enquanto grandes quantidades de determinados adoçantes, especialmente alguns polióis presentes em produtos sem açúcar, podem provocar sintomas em pessoas sensíveis.
O álcool e refeições muito gordurosas também podem agravar o desconforto em algumas pessoas, embora os mecanismos e a resposta individual variem.
Existe ainda uma diferença entre o inchaço que aparece depois de comer e aquele que persiste durante todo o dia.
Uma distensão leve que aumenta após as refeições e melhora depois de evacuar ou eliminar gases pode estar relacionada ao funcionamento digestivo habitual. Já um inchaço persistente, progressivo ou acompanhado de outros sintomas exige atenção.
Nem todo aumento abdominal é causado por gases.
Em determinadas situações, o aumento do volume pode estar relacionado a retenção de líquidos, alterações hormonais, acúmulo de líquido na cavidade abdominal ou outras condições clínicas. Por isso, a avaliação depende do contexto e dos sintomas associados.
Sinais como dor intensa ou progressiva, vômitos persistentes, sangue nas fezes, febre, perda de peso involuntária, anemia ou dificuldade importante para evacuar e eliminar gases justificam avaliação médica. Distensão acompanhada de dor intensa, vômitos e incapacidade de eliminar fezes ou gases pode representar uma emergência.
Também merece investigação um inchaço novo que persiste ou piora progressivamente, principalmente quando vem acompanhado de saciedade precoce, alterações urinárias ou pélvicas, ou perda de apetite. Esses sintomas não significam necessariamente uma doença grave, mas não devem ser ignorados.
O tratamento depende da causa.
Se o problema estiver relacionado à constipação, a estratégia será diferente daquela indicada para intolerância à lactose ou síndrome do intestino irritável. Em alguns casos, pode ser necessário investigar doença celíaca, alterações da motilidade intestinal ou outras condições.
Por isso, eliminar vários alimentos simultaneamente sem orientação pode dificultar a identificação do verdadeiro fator desencadeante.
Uma abordagem inicial útil é observar a frequência dos sintomas, o horário em que aparecem, os alimentos consumidos, o padrão de evacuação e a presença de dor ou outros sinais. Um registro simples pode ajudar a identificar relações consistentes e fornecer informações úteis durante uma consulta.
Também é importante evitar o uso frequente de laxantes, medicamentos para gases ou suplementos digestivos sem compreender a causa do problema. Embora alguns possam ser úteis em situações específicas, eles não resolvem todas as formas de inchaço.
Em síntese, o inchaço abdominal pode resultar da produção de gases, da fermentação de determinados carboidratos, da constipação, de intolerâncias alimentares ou de alterações na comunicação entre o intestino e o cérebro. Nem sempre existe uma quantidade excessiva de gás: a sensibilidade intestinal e a maneira como o conteúdo digestivo se movimenta também influenciam os sintomas. Comer com mais calma, observar os alimentos desencadeantes, manter atividade física e cuidar do funcionamento intestinal pode ajudar em muitos casos. Entretanto, quando o inchaço é persistente, progressivo ou acompanhado de sinais de alerta, a avaliação profissional é importante para identificar a causa e orientar o tratamento adequado.
Referências científicas
– Lacy, B. E. et al. ACG Clinical Guideline: Management of Irritable Bowel Syndrome. American Journal of Gastroenterology, 2021.
– Drossman, D. A.; Hasler, W. L. Rome IV—Functional GI Disorders: Disorders of Gut-Brain Interaction. Gastroenterology, 2016.
– Staudacher, H. M.; Whelan, K. The low FODMAP diet: recent advances in understanding its mechanisms and efficacy in IBS. Gut, 2017.
– Mearin, F. et al. Bowel Disorders. Gastroenterology, 2016.
– National Institute for Health and Care Excellence (NICE). Irritable bowel syndrome in adults: diagnosis and management. Clinical guideline CG61.

Farmacêutico
Licenciado em Farmácia pela Universidade Paulista – UNIP – 2018
Profissional com 14 anos de Experiência em Farmácia de Manipulação,
após formação atuante como Responsável Técnico, com Inscrição no Conselho Regional de Farmácia N.89527
